sábado, 13 de setembro de 2008

Dissoluções Folosóficas

Noite azul e escura...
Sentados num chão qualquer
Olham temas dissolutos
Nas pontas dos cigarros.
O branco que sai das narinas
Já não é fumaça,
É o resultado da filosofia
Natural e célebre dos fumantes
Que chegam a uma conclusão:
A alma é feita para morrer;
A alma está morta;
A gente vive para a morte...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Rosa Toxicada

"A Rosa despedaçada,
O cravo pôs-se a chorar..."
Rosa definhada;
Consumiu-se em pedra e areia,
Vento e Terra
E tornou-se Pó,
Que do Pó que veio
E haveria de um dia retornar.

Nos meandros derradeiros
Os sinos tocam
E embalam a sina dessa Rosa,
Que ficou doente,
E, pouco a pouco definhou,
E recriou o mundo à sua maneira,
E se refez em pó;
Absoluto, Trépido, Obsoleto.

domingo, 7 de setembro de 2008

Vagações Etéreas

E o etéreo me suga,
Pelo braço,
E me leva, longe.

E me perco, parco,
Na imensidão da noite
E esbarro na Ursa Maior.

Num resvalo de luz
Caio ao chão; acordo.
E vivo tudo de novo, vivo.

Viajem à Quimera

Cansei meus braços
Escalando o Monte de Quimera.

Nenhum guerreiro
Trouxe, em seus braços,
Marcas mais fundas
Que as do Monte de Quimera.

Meus braços agora são fracos
Perderam força na subida,
Sem lembrar que a Quimera é alta,
Que um dia teria que descer.

Mas de Quimera trouxe comigo
Toda raça de fé que haveria de ter.
Trouxe comigo
Toda taça de vinho que deixei de beber.
Em função de Quimera, perdi um "quem dera".

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Loucura Técnica

As coisas se quedavam presas numa mistura homogênea de ácidos fortes. Tudo se esquentava e aumentava a pressão, numa PG de razão irracional. Quase explodia...

De repente, a freqüência das colisões se tornou muito grande. O calor calefou toda calma que existia e explodiu tudo num grito de 700 Hertz.

Então pus na minha frente um espelho que ampliasse a dimensão das coisas; pus uma fantasia e fui viver no palácio de rei, de bobo da corte.

Manifesto ao Silêncio


Cala-te.
Que a poesia quer abrir a boca.
Silenciem o mundo
Quando a poesia começar a falar
Que todas as criaturas devem ouvi-la,
E descobrirão o derradeiro grito da alma.

domingo, 31 de agosto de 2008

Concessão da alma

Minh'alma saiu do corpo.
Tem agora vida própria
E erra, solta,
Qu'ela é, agora
Livre de meu corpo sujo.

Minh'alma é, agora
Leve e compassiva,
Então a podes ver
E tomá-la para ti,
Caso lhe seja de desejo.

Vê como minhas mãos putrefam,
Vê o bloco de gelo nos olhos,
Ouve a monotonia cardíaca,
Ouve a fraqueza desta voz.
Houve tudo, e minh'alma foi-s'embora.

Leva-a contigo.
Alimenta-a,
Qu'ela agora é tua,
E há de tomar teus frutos,
E alimentá-los, como meus.

Redentor

E o destino vem, sóbrio e colorido.
Senta-se ao lado, abre seu jornal,
Sem pressa.
Cumprimenta; dá bom-dia
E punge teu tórax
E rasga-te como porco a mais
De sua criação.

Passou-se vida toda a cuidar de margarida
E margarida foi pisada e cospida.

Mas permaneço de pé.
Permaneço tonto, atento
Pra qualquer hora dessas
Ter um vira-jogo.

E a ganância é tanta,
Mas a ganância é tanta
Que mesmo que me dilaceracem,
Mesmo que me amordaçassem,
Continuaria de braços abertos
À espera de mais tiros...

domingo, 24 de agosto de 2008

Desmateriação ansiosa

Quero me acabar
Em pétalas azuis
E renascer
Na rosa púrpura do jardim.

Quero me esconder
Por entre a relva
E gladiar
Com os pássaros no ar.

Quero morrer todos os dias
E acordar sozinho,
Depois ir à cozinha tomar café
E me acercar de todo mundo.

De tudo que eu quero
Só me resta um pedido,
único e fatal:
Não quero mais nada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Diálogo Infantil: Sobre o Crescer das Pessoas

- Irmão, vamos ali no quarto. A Fera tá só esperando a gente chegar e derrotá-la.
- Que Fera? Desconheço tal ser.
- Irmão! A Fera que a gente tava lutando contra ela ontem. Lembra não?
- Não me lembro de ter lutado contra ser algum ontem...
- Porque que você tá com essa cara séria? Cadê aquele sorrisão bonitão que ficava na sua cara?
- É irmão... O sorriso acabou. Infelizmente eu cresci, e agora não entendo mais nada do que você fala. Meu mundo não é igual ao seu. Não há monstros, nem fadas, nem estórias quaisquer que possam fazer de mim um príncipe ou um cavaleiro corajoso. Agora tudo aquilo de bonito que a gente construía perdeu seu lugar para um monte de números, e o nome que o Rei daquele reino muito distante foi trocado pelo número do meu CPF. Eu virei um número. Desculpa, Irmão.
- (choro)
- Não chora, Irmão. Vai acontecer contigo também...
- Quando eu crescer a gente brinca de número, então...

domingo, 17 de agosto de 2008

Metalinguagem #5 - O Ocorrer das Coisas

Vai, poeta...
Junta aquilo que te aflige
E cospe tudo num poema!

Grita ao som amarelado
Da palavra tudo aquilo que te doi
Depois engole, e regurgita em poesia.

Faz de tua letra, música,
E de tua música
A sublimação do defunto da vida.

Transorma tua folia em tua fonia,
E faz dela o grito que ninguém ouve,
E ouça só tu a tua poesia, enfim.

Parte-sino

E, do dia em que se partir em diante,
Há de ser refeita toda aquela soberbia
Que o levara ao tédio antes de se partir.

Vá-te, criança pequena,
Corre campo verde
Antes que o verde enegreça.

Pega lírio e cheira,
E se ria, contente da vida,
Qu'ela é pouca e corre.

E, do dia em que se partir em diante,
Há de se perfazer, ao longe,
Toda a euforia que havia naquela menina...

sábado, 16 de agosto de 2008

Cielo Tempo

Galga-se na escada
Que leva à glória
E, de lá, toma-se um tombo
Leve, e cai ao chão, de cara.

Que será que é?
Pintura, gravura, retrato?
Que será que é que mostra
Esse episódio calado da vida?

Quem sabe o não saber
Seja o mais sábio
Dos saberes
Por agora?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Plumpt!

É sobremesa antes do almoço;
É ver de novo, ver TV colosso;
É euforia
É alegria, ria.

Amanhã que nem é dia
Minha sina é de pirar
Revolvendo vivas voltas,
Vivo, vou vendo avivar.

Amanhã que nem é dia
Nem é dia de gritar,
Já desperto na euforia
Da alforria de chorar.

É sobremesa antes do almoço;
É ver de novo, ver TV colosso;
É euforia
É alegria, ria.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Dez pedidos

Soltava a cabeça
E a deixava pirar sozinha.
Corria lá no monte,
Naquele monte de coisa
Que a gente poderia ter feito,
Ter feito se o tempo não fosse maldito
E se pusesse a maldizer o nosso tempo.

E lhe deram tempo, bem pouco tempo
Para que fizesse tudo aquilo
Que não lhe cabia na cabeça
Porque era pesado demais,
Porque era insípido, inodoro e incolor.
Não era água... era dor.
Era a dor de ter vivido tanto em pouco tempo.
Era a dor de ter vivido tempo em tão pouco tanto.

--------------------------------------------------

Detesto dizer isso: Adeus, Moleque.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mãe Joana

Há de ser parida
A dona do fado humano,
Que fora deciso e próprio
Do ser que chora atônito.

Há de ser remida
E presa num lugar distante,
Se fazendo sóbria
De sua missão.

Há de quebrar corrente
E fazer rebelia
Contra todo aquele
Que lhe queira em peleia.

Há de querer gritar
Na bioca alheia
E fazer do grito
Bala, faca e guerra.

E há de ser torturada
E morta como infiel
Que ousa abrir a boca
Contra aquele que manda mais.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ânsia-tórax

E te queda
"Garota e seminua"
No meu verso
Qu'ele é feito a ti.

E corre a seda
Leve e solta em teu corpo,
Que lhe dá a forma exata
Ao desejo forte.

Canela, cravo, violino.

New york, New york

É tudo o que quero ser. Quero ser o que ninguém quer. Quero fazer tudo aquilo que todo mundo despreza, que todo mundo não quer fazer. Posso Até ganhar dinheiro assim, não posso?

Quero ser o idiota do monobloco. Aquele que no fim da festa ainda está cantando sem parar, que ainda sorri, sem o menor receio de ser chamado de idiota, apesar de ser somente isso: idiota. Ser idiota é o que há. É o que há de mais satisfatório na vida, uma vez que sendo idiota assumido, o merecedor de tal apelido não ficaria chateado e continuaria vivendo numa boa ao ser zombado. Ele ainda iria cantar as músicas nos fins das festas, ainda iria rir como só um idiota sabe fazer, ainda iria comer pão com salame na frente de todo mundo achando uma delícia, iria dançar na chuva, iria falar bobeira na frente de todo mundo, enfim, continuaria feliz. Já o zombador(idiota esse, pejorativamente falando) não iria se contentar, e iria continuar a lhe dirigir ofensas e mais ofensas até perceber que nada disso adianta. "É como disse na música: quero é ser ninguém na multidão."

E assim, a gente vai descobrindo que nem sempre na vida tropeço é caminho, nem sempre na vida máscara é de fantasia, e nem sempre na vida amor e ódio andam juntos.
-----------------------------------------------------------
Ps: E sim, o idiota sou eu mesmo!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Monovalsa

O abandono monocolorido
Cerra tempo insolúvel
Na ardência calma
Da ânsia de vida.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Diálogo infantil: sobre a morte


- (Snif, snif!)
- Que foi?

- A Lila morreu...
- (Silêncio, seguido de um riso de canto de boca)
- Pára de rir, seu mamão!

- Irmão, olha só... lembra quando a Lila teve filhotinhos?
- Lembro...

- Lembra que tinha o Stulk, a Kika, e o Baco? E lembra que o Baco morreu?

- Lembro...
- Então, quando o Baco morreu a Lila chorou também... mas ela ainda tinha dois filhotinhos.
- Que que tem isso? Eu não tenho filhotinhos.

- Mas ainda tem o Stulk e a Kika aqui em casa.
- A Lila esperou a gente enterrar o Baco e foi cuidar dos outros dois... a gente tem que chorar sim, mas a gente tem que chorar de alegria também, a Lila tava velha... teve uma vez que ela me contou que queria 'ir dormir'...

- Ela tá feliz?

- Tá sim!

- Então tá... vou parar de chorar daqui a pouquinho tá?
- Tá bom... olha, eu vou te deixar aqui no quarto, pra você terminar o choro. Volto daqui a pouco, tá?
- Tá bom... Irmão!
- Oi?

- Eu te amo, viu?

- Eu também, irmão.

- Pode chorar no seu travesseiro?

- Pode... mas se você babar nele eu te bato.

Diálogo infantil: sobre os irmãozinhos


- Irmão... quer ter mais um irmãozinho?
- Hum... não sei... mas, e se eu quiser, e daí?
- E daí que a gente pode ter um irmão facim, facim...
- Pode?
- Pode...
- Então arranja um irmão aí.
- Não! Nâo é assim também, né, ou... A gente tem quefazer a encomenda, ou ´plantar ele no quintal, ou ir lá no céu...
- Hãn?
- É... é assim: a gente pode ter um monte de irmão diferente, e pra nascer de cada jeito, a gente faz ele de um jeito diferente.
- Ah... aí se eu quiser ter um irmão que gosta de animal eu peço pra cegonha?
- Isso!
- Nossa, que bonito isso...
- Então vou plantar um irmãozinho lá na horta.
- Porque?
- Porque ele vai saber mexer com comida... aí ele vai dar comida pra todo mundo que não tem, e vai ficar todo mundo feliz... igual quando a gente ganha ovo grandão na páscoa.
- Ah... então tá... vamos lá pedir a sementinha 'praquela' moça que vende verdura... CORREEEEE!!!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Suvenir

Pele; tua boca enroscada, nua.
Corpo; nua pele recatada a tua.
Fado impróprio, assisto a ti, calado,
Assisto a ti, Pierrot apaixonado.

Teu colo, olor intacto, Jasmim.
O olho teu, fosfóreo Vitral em mim,
Que me olha, na cara, tão perspicaz
Interrompe roleta-russa em paz.

A ti não descreveria com seleta
D'outro autor que possa a ti vestir,
Ou Um, que viu alma melhor, mais qu'esta.

Dei minh'alma, podes me ferir.
Fixa, de ti não há cópia quieta,
Que Tu és Corpo e Alma; Suvenir.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Miss.

Aperto/EU-----------------------------------------Desaperto.
Aperto/EU-------------------------------Desaperto.
E parto EU-------------Desaperto.
E parto EU ao Desaperto.
Desaperto EU ao parto.
Desaperto e parto EU.
Desaperto e EU.
Dez apertos e EU.
Aperto-------------------------------------EU.

E fica tudo apertado de novo...

domingo, 27 de julho de 2008

Diálogo infantil: sobre a saudade


- Ai, Irmão...
- Que foi, Irmão?
- Eu tô com saudade...
- Calma, Irmão. Vai passar... Mas... O que que é saudade mesmo?
- Saudade... ah, saudade é um aperto que o coração dá nele mesmo pra avisar que precisa de alguém que está longe. Quando a gente sente saudade, a gente fica com vontade de inventar um ônibus que vai num lugar bem longe só pra poder viajar um tantão e ver o que faz falta. Saudade é quando a gente vai dormir e sente saudade do abraço, é quando a gente fica toda hora pensando numa coisa que a gente queria estar perto... Enfim, saudade é quando a gentre quer uma coisa que tá longe.
- Hummmmm... que saudade de comer bombom!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Até Que Amor[te] Os Separe

Ânsias escondidas
Por detrás de vestidos brancos
Gritam alto a carne rubra
Por detrás dos vestidos brancos.

O terno negro espera
Sagaz e típico de sua cara,
E, em silêncio
Chama a alvura para perto de si.

Aquele vestido branco se jogou.
Se sujou com o rubor da carne
E, enfim não foi usado.

"Corrompeste a decência humana,
Não és digna de meu epíteto."

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Reflexos-devaneio

Lembra do redemoinho
Alvo que te amanhecera
Na cabeça
Antes de levantar?

Lembra daquele vento frio
Que antes de te ninar
Passara turbilhão
Ao norte da montanha?

Lembra daquela água
Em que te refrescara
Antes de se tornar enchente
À porta de minha casa?

E daquela niña preta
Que te servira antes de morrer?
Lembra-te?

Eu sou a niña preta,
E sou o moleque que
Desfaleceu na sua cahoeira,
E sou a árvore que caiu
Coma força de teu vento.

Esmola


Pulsos cortados,
Rosto dilacerado,
Unhas quebradas.
A imagem choca.

Resvala-se um pouco de dó.
Esquece-se da verdade
E doa-se alguns trocados.
A facilidade hipócrita
Encerra a vida alheia,
Um pouco mais rica,
Vinte e cinco centavos,
Precisamente.

Tempos modernos

Fez-se noite na lucidez
Da cabeça clara do homem.
Esqueceu-se que alguém disse
"Sem amor eu nada seria."
Guilhotinou-se heroínas,
Amordaçou-se tal Platão.
Bombardeou-se a tal caverna.
Por fim, castrou-se mente minha.
Já não penso, não falo nada.
Trabalho, como, bebo, morro.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Diálogo infantil: Sobre o beijo


- Irmão, ela me deu um beijo hoje.
-Que? Ela te deu um beijo?
-É, ela me deu um beijo.
-E agora? Que que a gente faz?
-Ah, a gente espera.
-Mas conta pra mim, ela te beijou mesmo?
-Sim. Ela que me beijou. De boquinha quente ainda.
- Como que é um beijo?
-Ah, um beijo é um carinho que estala.

Discurso sobre o Amor

Retrocedendo um pouco o meu dia, me lembro de ter ouvido da boca de alguém a seguinte frase: "Te amo não é bom-dia". Alegaram-me que o "te amo" deve ser falado em momentos especiais, tipo naquele jantar caríssimo que o namorado paga quando faz um ano de namoro. Ora, mas por que "te amo" não pode ser falado toda hora? Porque o amor deve tere hora pra acontecer? As pessoas são estranhas. Me ensinaram que amor não tem hora, que quem ama de verdade, ama até na hora da doença, que só a morte separa o amor verdadeiro. Então porque escolher a hora certa pra amar? As pessoas acham feio quando um casal de namorados diz que se ama o tempo todo. Qual é o motivo disso? Não há nada de muito racional por trás disso, com certeza. Seria inveja? Não sei, sinceramente. Mas se há necessidade de se dizer "te amo", que o diga, pois. E para aqueles que acham que amor é reloginho, lembrem-se de seus pais, e lembrem-se de que quando seu alarme tocar o tempo pode ter passado um pouquinho.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Soneto de Apocalípse

Com o “amai-vos uns aos outros”
Fez-se guerra frente à paz.
E nós, agindo qual potros,
Decapitamos Eros. Ás.

Cortou-se punhos de Vênus,
Que chorava sangue-lágrima.
Fez-se de meu cardo ânus
E escudos cravam minh’alma.

Volveu-se a pútrido o santo,
E amou-se, ao bel-prazer, o ínfimo.
Livrou-se, então, do pranto.

Me vi, então, do ódio íntimo,
Me vi tal qual e tanto quanto
Da guerra e do ódio o cimo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Biofolia

Chega de tristeza
Que tristeza é coisa
De a gente não cultivar.
Chega de saudade
Que saudade é faca
Que faz a gente cortar.

Vem viver a vida,
Dança doida e farta,
Que faz a gente chorar.
Se tiver que chorar
Chore rindo, alegre,
E tenta fazer melhorar.


Vem, toma meu braço
E, no meu passo, amor,
Vem cá comigo dançar.
Dança a vida alegre,
Forte e firme e doce
E lembra que já vai passar.

É carnavalia
É alegria fria
Que o tempo há de levar.

Apagaram luzes
Tá escuro e frio,
A festa iria acabar.
("Que pena")

sábado, 12 de julho de 2008

There's no name

Tácitos gritos cálidos
Réplicos de tua nédia
Próclise fala fálica.
Súbito peço óbito.
Ávido, eu, estúpido,
Mórbido pelos árdegos
Tácitos gritos cálidos...

Auto-psy

Lembra-te que és fruto do pó
E ao pó há de retornar.

Lembra-te, então, que pareces
Com tua mãe, e dela herdara
Tudo que hoje tu menospreza.

E, lembra-te, enfim, de tu,
E dos filhos que já tivera
Antes de desejar a morte
E saber que era bem (ção) tua.

quarta-feira, 9 de julho de 2008


Por mais indiagnosticável que seja a doença, lembra, tu: ela é parte tua, e em ti encarna e berra alto.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Big-Bang

Não se sabe ao certo
O que aconteu.
Viu-se clarão dilacerar
As sombras e devolver a vida
Àqueles que outrora eram somente lenda.
Daí, sonhos renascem,
Auroras boream...
E se morre, na velocidade com a qual
A sombra foi rompida.

domingo, 6 de julho de 2008

Metalinguagem #4 - O Verso das Coisas

É que, às vezes,
A gente grita
E não sabe o porquê.

É que, às vezes,
A gente entende
A palvra alheia
E sofre, de esquina.

É que, às vezes,
Nem tudo é tão difícil,
E não mata nem fere.

E não importa de que forma
Mudându a phorma de phalar,
0u 4 form4 d3 escr3v3r,
Alguém sempre entende o dito
E chora ao pé da mesa,
Amarrado, preso, livre.

Metalinguagem #3 - O Como das Coisas

Quimeras explodem
Olhos roucos.

Olhares implodem
Vozes cegas.

E cego e rouco
Não reajo à bomba
Tóxica da palavra
Tônica que me acerta o peito.

Depois grito e durmo,
E acordo inocente
E sóbrio,
Decido ganhar a palavra
Que outrora me acertava
Em força...

E com um leque vocabular
Me estranho aos fatos da vida
E os jogo em gritos-termo
Em versos,
E acabo uma vida com um ponto final.

Beco


E, de Beco, não se fala nada.
De Beco não se entende nada.
Vidas Beco, raças Beco, sons de Beco.
Nunca se sabe donde vem o próximo grito,
Mas sabe-se que vem do Beco.

E a emergente Coisa-Beco que se aproxima

Leva e toma conta de tudo e todos,

Fazendo do Beco aquilo que não se esperava:
Apenas o velho e silencioso Beco.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Gênesis

E o Cavalo-de-tróia entrou
Posudo, confiante.
O que ele não sabia
Era que havia fogo.
E o fogo, ligeiro que só,
Subiu pelas pernas
E fez Cavalo-de-tróia
Dançar aquela valsa bonita,
A valsa da destruição...

Dalí, chamuscavam partes
Para todos os lados.
O calor, não se sabia se era de fogo ou ódio.
As partes eram humano-eqüinas,
E num Caos total, Eros tomou posse
E uniu a tudo: fogo, ódio, guerra.
Dessa união nasce o homem,
Pensante, crente, arrasador.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Qu'é só o amor

Às vezes o Amor é grande,
E dilacera o peito, e arrebenta a carne,
E degusta o coração e bebe o sangue
Como num rito canibal,
Que é o que o amor é.

Mas o Amor toca e não se sente.
E toda sua agressividade se passa
Despercebida diante do fulgor
À flor da pele em erupção.

E de mim, Amor não há.
Porque Amor foge à vista e fere a retina,
Porque só Ele faz da pedra éter,
Do podre, ouro,
E da lenda fato, foto. Feto.

Reflexo-bombardeio

E reduzido a pó,
Me dividi e criei o monstro,
Que ataca sem razão,
Apunhala alma'lheia,
E come tripa, rebuscada de sangue.

E reduzido a pó,
Me dividi e criei o médico,
Que cura as feridas mais abertas,
Sana dores, cria amores.
E dá luz a vida, gritada em grito santo.

E reduzido a pó,
Expando e implodo,
Nessa fúria-calmaria
Que se ria[cria, via e gemia],
De dó.

E eu,
Cissíparo que nem só
Permaneço átono, pálido, ático.

domingo, 29 de junho de 2008

...

Reticências...
Reti-sensos...
Reto e sensos...
Ritos e sonsos...
Ratos e sensos...
Roucos salsos...
Rangos sifos...
E reticências...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O depois do agora

Depois a gente brinca de sentir gosto de sal.
Depois a gente brinca de lamber água
Que escorre pela face e rola, inocente,
Sem culpa da tristeza alheia.

E a gente brinca de gritar angústia,
Aí a gente brinca de cortar os pulsos
E depois a gente brinca de brincar de morte
E deita, calmo, pálido, ríspido.
E brinca de despedida:
Beijo, choro, tchau.

Reticências

É que de vez enquando
A tristeza aclança e fere
Com ferro quente,
E corta a fogo a pele
Frágil e branca.
Toca e dilacera
Olho de menino grande
Que chora de medo
Do amanhã incógnito,
Escondido por entre vento
E nostalgia.
E depois consola,
Com a faca suja de sangue
Acaricia a face fria e trêmula,
E beija a boca num sinal de Judas
E se despede com a morte fria...

Nova Erao

E as coisas...
Lentas e fixas como elas são,
Ricas e tortas como elas são,
Ásperas e rígidas como elas são,
Tétricas e céticas como elas são,
Começam, agora, a mudar então.
E a gente roda, pia,
Rodopia.
E grita o nome do pai
Pra poder chamar almoço,
Que tá com fome.

E pula e olha a volta do sol na margarida.
E no fim das contas
Percebe que é feliz
Sem nem saber donde é
Quem vem essa coisa toda.

Monólogo infantil: sobre o primeiro amor

Ai. Aqui tava tudo tão sozinho. Tava tudo tão escuro, e tudo tão parado. Às vezes animo e jogo bola com essa agüinha que roda e fico chutando essa parede macia. Mas não tem nada pra fazer.
Aí Ela me chama e me brinca e m'esquenta. Aí eu fico até daquela cor que não sei o nome, aquela clara, que brilha, brilha. Aí, depois, vem Ele. E Ele me canta e me abraça, de longe, que nem seinto o abraço dele, mas sinto o amorzinhinho dele. Sei que quando eu chegar lá fora uma tal de mamãe vai me amar muito, foi Ela quem me contou. Sei também que um tal de papai vai me proteger, porque Ele me disse. Mas não quero papai nem mamãe, quero ficar com Ela e Ele. A eles eu amo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Hereditariedade

É que às vezes me sublimo.
E putrefo,
Só pra manter motivo
Só pra meter mais vivo.
E ainda sei
Que mais hora
Menos hora
Hei de me perder nessa ânsia.
Hei de herdar seu trono, trêmulo.
E hei de chorar tua morte.
Mas limparei o sal dos olhos e vos direi:
Respeitai a mim, vosso senhor.

Aliterações aliterárias

Giro junto ao jato
E nessa ginga, gemo.

Espero translações
Tão translúcidas,
Tanto quanto o teto
Do meu quarto roxo-alvo-rubro.


Pé pesado, passo,
Me perpassa o pó, poeira
Cá, pó. Capoeira.

Pingo lá do pico
Pinga preta, pó, piau.

Redondo, rodo, reto
Rio, riso e coisa e tal.

Não adianta nada,
Nada, nada, nada
Nado, nato, ninguém
Apto, ninguém sóbrio,
Nem eu.

Me masturbo em letra.
E gozo ponto final

terça-feira, 24 de junho de 2008

Dia 1

E o cara da rádio não cala a boca.
Não quero saber da crise estatal.
Acho meu estômago mais importante
Do que a crise nacional.

Foda-se a prefeitura
Se dane o congresso
Se lasque o prefeito
Jà tem mais de um processo.
---------------//-----------------------
Dia 2


Obrigado, Senhor
O pão estava ótimo.
Não gostei muito do circo,
Acho que pode melhorar.
O palhaço é sem graça
E eu preferi o mágico.

Obrigado, Senhor
Já trabalhei minhas oito horas,
Respondi ao meu processo
E não levei meu patrão na justiça.
Sem contar que pus
Cinqüenta centavos na caixinha
Da Igreja.

Amém, Senhor.
-------------------//-----------------
Dia 3

De repente
Ficou tudo tão pequeno
Que até entendo Rutherford.
Mas ainda não sei nada
Sobre a crise nacional.

Às vezes sinto muita vontade de comer açúcar
Deve ser o resultado da metamorfose.
Ou porque ninguém tem coragem
De vir Kafka comigo.
É o nojo da casca das costas.

Obrigado, Senhor.
---------------------//-------------------------
Dia 4

E o cara da rádio
Não quer calar a boca
Eu já me cansei da crise nacional.
---------------------//--------------------------
Dia 5

Fui, enfim despedido
Daquela droga de rádio
Não preciso mais saber sobre a crise nacional
Eu só quero agora minha arma na boca
E ir pra casa e coisa e tal.
Tchau.
-------------------//-----------------------------
Dia 6
...
-------------------//----------------------------
Dia 7
...
------------------//------------------------------
Dia 8
...
------------------//------------------------------
Dia 9
...
------------------//------------------------------
ETC.

--------------------------------------------------

Obs: ETC = Espírito Tragicamente Corrompido

quinta-feira, 19 de junho de 2008

(dez) Igualdades Tétricas

E meu olho é igual a olho dela.
E ela canta sempre comigo.
E a gente se sente falta.
Por que ela é somente a moça da foto.
E somente não existe mais.

E a cara dela mente a doença,
E a cara dela esconde a tristeza.
E a cara dela fala, por si só, que inda há dor.
Igual à minha.

E, de repente a gente descobre
Que tá tudo igual.
Não tem mais só foto.
Agora tem a gente.
Forte, fraco, morto.

E tudo isso se queda preso novamente.

Guerra fria

Lanço mão do escudo
Ao pé da escada.
Me desfaço das flechas
Que me fazem tão frio.
E é só depois que vejo
Que a flecha que desviou ao lado
Acertou alguém.
E esse alguém era mais forte.
Mais que meu escudo.
Era uma parte de mim
Desculpa, Amor.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

No Teu Sono

Espera ,
Continua deitada
Que vou buscar pra ti
A aurora mais fresca,
A aurora que te adormeça
E faça sono, e faça sonho.

Quando tu dormes
Vejo no rubor da tua face, em sono,
Que ainda há, mesmo que em resíduo
Inocência.
E quando tu dormes,
Vejo que, em persistência,
A vida se faz mais bela,
E mais bela se torna no teu sono.

A coisa

Que é que é essa coisa que dá na gente?
Porque que é que nunca dá pra bater de frente?
Porque que será que nunca nada será da gente?

Meu filho, isso acontece porque a coisa anda coisando por aí.
Se ela te coisar, você vai ficar coisado.
E te garanto...
Ficar coisado não é legal.

sábado, 14 de junho de 2008


O que acontece é simples.
A gente que tenta complicar.
O fato é que um dia acaba.
O casamento, a farra, a juventude.
A vida.

"Não chores por mim.
Partirei em calma,
Chamarei teu nome,
E dar-te-ei a glória.
Mas não chores.
Que parto feliz.
Como quem encerra o sofrimento e a dor.

Cuida da vida,
Tu que fica."

-------------------------------------------

A moça da foto é(foi) minha tia.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Infantilismo

Porque a lucidez,
Se não a uso na infância?
Se posso conjugar errado e acertar a idéia,
Delirando o verbo,
Porque falar no certo?
Porque ver a cor da vida,
Se o gosto da cor é bem melhor?
Porque sentir o cheiro de café,
Se ele grita ao meu ouvido?
Deliro verbo.
Mas a razão está intacta.
Infantilismo.

Monte Castelo

Desculpa-me, pai.
Desculpa-me se fui em nome da pátria.
Desculpa-me se tentei a luta.
Desculpa-me se não confiei, e tentei salvar meus filhos.
Tentei salvá-los do ódio facista, da mão nazista.
Tentei salvá-los da morte, a pior de todas.
Tentei salvá-los do dó. Tentei salvá-los dos olhos alheios.
Não consegui. Me atingiram pelas costas, os meu amigos.
Senti o frio traidor no fogo amigo.
Senti o estrago do ódio nas pequenas balas inimigas.
E senti a morte me lavando.
E senti o amor, que só eu tinha. E usava.
E senti que não era mais necessário usar.
As balas falavam por ele.
"Sem amor eu nada seria."
Não chorei. Não chorei
quando me atiraram a lança no peito.
Não chorei quando me esfolaram a face.
Não chorei.
Não chorei quando me bateram pelas costas
E me disseram que era fraco.
Ora, porque haveria de ser eu, fraco?
Porque haveria de ser eu o traidor?
Porque haveria eu de ser o culpado de tudo isso?
Mas não chorei.
Ergui a cabeça, agradeci a todos.
Olhei à elas, pedi perdão.
Aí, sim, chorei.
Mas chorei porque o sonho havia acabado.
E chorei porque havia sido amado.
E chorei porque queria tornar tudo melhor.
Então saí.
Dei a mão à carruagem que me perpassava
E tomei destino rumo ao nada,
Hoje só me resta a cova,
Ríspida e brilhante,
E carregada do fascínio com que adimiravam minha força.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Monólogo Infantil: Por que que quando acaba fica tudo mais melhor???

Era tudo tão cinza antes, agora tá rubro, rubrão mesmo. Sempre que ovo a cor
vermelha sinto que tô saindo do casulo. Aí vou lá fora e pego uma rosa bem vermelhinhazinha e mostro a cor gritada dela pra minha mãe. Você não conhece ela, mas se conhecesse com certeza ia amar mais que eu. A gente sempre ama a mãe da gente...

A gente só não ama quando ela é malvada e joga do sexto andar.

Reti--sensos

E a lua mente o verde dos olhos
E os olhos gritam a luz da lua.

E a alvura vulga de tua pele
Se torna inefável ao som da lua.

E o verde esconde a cor dos olhor
Que é negra por herança humana.

E o rubor da face lânguida
Me declara a exaustão.

E a lua que perpassa a janela
Banha o ápice sinestésico.

Acabou.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Escárnio/ Escarro

O fétido asco,
Cospido como ele só,
Me agarra as entranhas
E como ele só,
Acidula tudo aquilo
Que outrora era paixão.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Discurso Póstumo

Minha vereda é, agora,
Os verdes campos, olorosos
Dissera basta ao tédio de mim possessor.
Que, ácido, me corroia as entranhas

M’embalo nesse manto negro,
Pra fugir daquela lucidez
Que me doía os olhos:
Furos nas retinas doridas

Paro de chorar, agora que cheguei
A(o) dor(me) dela, sou grato.
_Dei-te a mão, Dona da Foice.

E agora, me despeço, nada peço.
Agradeço-te, que amor(te) dei,
Em vão.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Apocalipse

E a frente de batalha inimiga
Prepara suas catapultas sentimentais
E lançam o asco ácido sobre os homens.

É, inda bem que nos avisaram
E a gente está preparado...

Não tá?

Desenomado

Já doei meu corpo
À tua alegria.
Já senti teu rosto;
Tua cara fria...


Mas nunca, na passagem
Desse tempo onde criei
Todo esse ódio negro
Nesse quase-verso-branco
Não achei pessoa alguma
Que curasse esse meu pranto.


Já cortei os pulsos
Com lâmina fria
Me acolheu convulso,
Me encheu de alegria.

Mas só quero que saiba
Que amanhã quand’eu partir
Te levo com meu pranto
Nesse quase-falso canto.

Já doei meu corpo
À tua alegria.
Já senti teu rosto
Tua cara fria...


E só quero que saiba
Que amanhã quand’eu partir
-Não há nada maior
De tudo que eu por ti senti.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mudo...

E a réplica anestesiada de tudo
Me toca face e corpo
E me faz estático porque me toca.

E permaneço quieto,
A olhar o fragmento de pó de estrela,
Quen insiste em brilhar,
Mesmo que já sem vontade.
Aproveito e faço igual.
Ainda mudo.