domingo, 6 de julho de 2008

Beco


E, de Beco, não se fala nada.
De Beco não se entende nada.
Vidas Beco, raças Beco, sons de Beco.
Nunca se sabe donde vem o próximo grito,
Mas sabe-se que vem do Beco.

E a emergente Coisa-Beco que se aproxima

Leva e toma conta de tudo e todos,

Fazendo do Beco aquilo que não se esperava:
Apenas o velho e silencioso Beco.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Gênesis

E o Cavalo-de-tróia entrou
Posudo, confiante.
O que ele não sabia
Era que havia fogo.
E o fogo, ligeiro que só,
Subiu pelas pernas
E fez Cavalo-de-tróia
Dançar aquela valsa bonita,
A valsa da destruição...

Dalí, chamuscavam partes
Para todos os lados.
O calor, não se sabia se era de fogo ou ódio.
As partes eram humano-eqüinas,
E num Caos total, Eros tomou posse
E uniu a tudo: fogo, ódio, guerra.
Dessa união nasce o homem,
Pensante, crente, arrasador.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Qu'é só o amor

Às vezes o Amor é grande,
E dilacera o peito, e arrebenta a carne,
E degusta o coração e bebe o sangue
Como num rito canibal,
Que é o que o amor é.

Mas o Amor toca e não se sente.
E toda sua agressividade se passa
Despercebida diante do fulgor
À flor da pele em erupção.

E de mim, Amor não há.
Porque Amor foge à vista e fere a retina,
Porque só Ele faz da pedra éter,
Do podre, ouro,
E da lenda fato, foto. Feto.

Reflexo-bombardeio

E reduzido a pó,
Me dividi e criei o monstro,
Que ataca sem razão,
Apunhala alma'lheia,
E come tripa, rebuscada de sangue.

E reduzido a pó,
Me dividi e criei o médico,
Que cura as feridas mais abertas,
Sana dores, cria amores.
E dá luz a vida, gritada em grito santo.

E reduzido a pó,
Expando e implodo,
Nessa fúria-calmaria
Que se ria[cria, via e gemia],
De dó.

E eu,
Cissíparo que nem só
Permaneço átono, pálido, ático.

domingo, 29 de junho de 2008

...

Reticências...
Reti-sensos...
Reto e sensos...
Ritos e sonsos...
Ratos e sensos...
Roucos salsos...
Rangos sifos...
E reticências...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O depois do agora

Depois a gente brinca de sentir gosto de sal.
Depois a gente brinca de lamber água
Que escorre pela face e rola, inocente,
Sem culpa da tristeza alheia.

E a gente brinca de gritar angústia,
Aí a gente brinca de cortar os pulsos
E depois a gente brinca de brincar de morte
E deita, calmo, pálido, ríspido.
E brinca de despedida:
Beijo, choro, tchau.

Reticências

É que de vez enquando
A tristeza aclança e fere
Com ferro quente,
E corta a fogo a pele
Frágil e branca.
Toca e dilacera
Olho de menino grande
Que chora de medo
Do amanhã incógnito,
Escondido por entre vento
E nostalgia.
E depois consola,
Com a faca suja de sangue
Acaricia a face fria e trêmula,
E beija a boca num sinal de Judas
E se despede com a morte fria...

Nova Erao

E as coisas...
Lentas e fixas como elas são,
Ricas e tortas como elas são,
Ásperas e rígidas como elas são,
Tétricas e céticas como elas são,
Começam, agora, a mudar então.
E a gente roda, pia,
Rodopia.
E grita o nome do pai
Pra poder chamar almoço,
Que tá com fome.

E pula e olha a volta do sol na margarida.
E no fim das contas
Percebe que é feliz
Sem nem saber donde é
Quem vem essa coisa toda.

Monólogo infantil: sobre o primeiro amor

Ai. Aqui tava tudo tão sozinho. Tava tudo tão escuro, e tudo tão parado. Às vezes animo e jogo bola com essa agüinha que roda e fico chutando essa parede macia. Mas não tem nada pra fazer.
Aí Ela me chama e me brinca e m'esquenta. Aí eu fico até daquela cor que não sei o nome, aquela clara, que brilha, brilha. Aí, depois, vem Ele. E Ele me canta e me abraça, de longe, que nem seinto o abraço dele, mas sinto o amorzinhinho dele. Sei que quando eu chegar lá fora uma tal de mamãe vai me amar muito, foi Ela quem me contou. Sei também que um tal de papai vai me proteger, porque Ele me disse. Mas não quero papai nem mamãe, quero ficar com Ela e Ele. A eles eu amo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Hereditariedade

É que às vezes me sublimo.
E putrefo,
Só pra manter motivo
Só pra meter mais vivo.
E ainda sei
Que mais hora
Menos hora
Hei de me perder nessa ânsia.
Hei de herdar seu trono, trêmulo.
E hei de chorar tua morte.
Mas limparei o sal dos olhos e vos direi:
Respeitai a mim, vosso senhor.

Aliterações aliterárias

Giro junto ao jato
E nessa ginga, gemo.

Espero translações
Tão translúcidas,
Tanto quanto o teto
Do meu quarto roxo-alvo-rubro.


Pé pesado, passo,
Me perpassa o pó, poeira
Cá, pó. Capoeira.

Pingo lá do pico
Pinga preta, pó, piau.

Redondo, rodo, reto
Rio, riso e coisa e tal.

Não adianta nada,
Nada, nada, nada
Nado, nato, ninguém
Apto, ninguém sóbrio,
Nem eu.

Me masturbo em letra.
E gozo ponto final

terça-feira, 24 de junho de 2008

Dia 1

E o cara da rádio não cala a boca.
Não quero saber da crise estatal.
Acho meu estômago mais importante
Do que a crise nacional.

Foda-se a prefeitura
Se dane o congresso
Se lasque o prefeito
Jà tem mais de um processo.
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Dia 2


Obrigado, Senhor
O pão estava ótimo.
Não gostei muito do circo,
Acho que pode melhorar.
O palhaço é sem graça
E eu preferi o mágico.

Obrigado, Senhor
Já trabalhei minhas oito horas,
Respondi ao meu processo
E não levei meu patrão na justiça.
Sem contar que pus
Cinqüenta centavos na caixinha
Da Igreja.

Amém, Senhor.
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Dia 3

De repente
Ficou tudo tão pequeno
Que até entendo Rutherford.
Mas ainda não sei nada
Sobre a crise nacional.

Às vezes sinto muita vontade de comer açúcar
Deve ser o resultado da metamorfose.
Ou porque ninguém tem coragem
De vir Kafka comigo.
É o nojo da casca das costas.

Obrigado, Senhor.
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Dia 4

E o cara da rádio
Não quer calar a boca
Eu já me cansei da crise nacional.
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Dia 5

Fui, enfim despedido
Daquela droga de rádio
Não preciso mais saber sobre a crise nacional
Eu só quero agora minha arma na boca
E ir pra casa e coisa e tal.
Tchau.
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Dia 6
...
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Dia 7
...
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Dia 8
...
------------------//------------------------------
Dia 9
...
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ETC.

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Obs: ETC = Espírito Tragicamente Corrompido

quinta-feira, 19 de junho de 2008

(dez) Igualdades Tétricas

E meu olho é igual a olho dela.
E ela canta sempre comigo.
E a gente se sente falta.
Por que ela é somente a moça da foto.
E somente não existe mais.

E a cara dela mente a doença,
E a cara dela esconde a tristeza.
E a cara dela fala, por si só, que inda há dor.
Igual à minha.

E, de repente a gente descobre
Que tá tudo igual.
Não tem mais só foto.
Agora tem a gente.
Forte, fraco, morto.

E tudo isso se queda preso novamente.

Guerra fria

Lanço mão do escudo
Ao pé da escada.
Me desfaço das flechas
Que me fazem tão frio.
E é só depois que vejo
Que a flecha que desviou ao lado
Acertou alguém.
E esse alguém era mais forte.
Mais que meu escudo.
Era uma parte de mim
Desculpa, Amor.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

No Teu Sono

Espera ,
Continua deitada
Que vou buscar pra ti
A aurora mais fresca,
A aurora que te adormeça
E faça sono, e faça sonho.

Quando tu dormes
Vejo no rubor da tua face, em sono,
Que ainda há, mesmo que em resíduo
Inocência.
E quando tu dormes,
Vejo que, em persistência,
A vida se faz mais bela,
E mais bela se torna no teu sono.

A coisa

Que é que é essa coisa que dá na gente?
Porque que é que nunca dá pra bater de frente?
Porque que será que nunca nada será da gente?

Meu filho, isso acontece porque a coisa anda coisando por aí.
Se ela te coisar, você vai ficar coisado.
E te garanto...
Ficar coisado não é legal.

sábado, 14 de junho de 2008


O que acontece é simples.
A gente que tenta complicar.
O fato é que um dia acaba.
O casamento, a farra, a juventude.
A vida.

"Não chores por mim.
Partirei em calma,
Chamarei teu nome,
E dar-te-ei a glória.
Mas não chores.
Que parto feliz.
Como quem encerra o sofrimento e a dor.

Cuida da vida,
Tu que fica."

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A moça da foto é(foi) minha tia.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Infantilismo

Porque a lucidez,
Se não a uso na infância?
Se posso conjugar errado e acertar a idéia,
Delirando o verbo,
Porque falar no certo?
Porque ver a cor da vida,
Se o gosto da cor é bem melhor?
Porque sentir o cheiro de café,
Se ele grita ao meu ouvido?
Deliro verbo.
Mas a razão está intacta.
Infantilismo.

Monte Castelo

Desculpa-me, pai.
Desculpa-me se fui em nome da pátria.
Desculpa-me se tentei a luta.
Desculpa-me se não confiei, e tentei salvar meus filhos.
Tentei salvá-los do ódio facista, da mão nazista.
Tentei salvá-los da morte, a pior de todas.
Tentei salvá-los do dó. Tentei salvá-los dos olhos alheios.
Não consegui. Me atingiram pelas costas, os meu amigos.
Senti o frio traidor no fogo amigo.
Senti o estrago do ódio nas pequenas balas inimigas.
E senti a morte me lavando.
E senti o amor, que só eu tinha. E usava.
E senti que não era mais necessário usar.
As balas falavam por ele.
"Sem amor eu nada seria."
Não chorei. Não chorei
quando me atiraram a lança no peito.
Não chorei quando me esfolaram a face.
Não chorei.
Não chorei quando me bateram pelas costas
E me disseram que era fraco.
Ora, porque haveria de ser eu, fraco?
Porque haveria de ser eu o traidor?
Porque haveria eu de ser o culpado de tudo isso?
Mas não chorei.
Ergui a cabeça, agradeci a todos.
Olhei à elas, pedi perdão.
Aí, sim, chorei.
Mas chorei porque o sonho havia acabado.
E chorei porque havia sido amado.
E chorei porque queria tornar tudo melhor.
Então saí.
Dei a mão à carruagem que me perpassava
E tomei destino rumo ao nada,
Hoje só me resta a cova,
Ríspida e brilhante,
E carregada do fascínio com que adimiravam minha força.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Monólogo Infantil: Por que que quando acaba fica tudo mais melhor???

Era tudo tão cinza antes, agora tá rubro, rubrão mesmo. Sempre que ovo a cor
vermelha sinto que tô saindo do casulo. Aí vou lá fora e pego uma rosa bem vermelhinhazinha e mostro a cor gritada dela pra minha mãe. Você não conhece ela, mas se conhecesse com certeza ia amar mais que eu. A gente sempre ama a mãe da gente...

A gente só não ama quando ela é malvada e joga do sexto andar.

Reti--sensos

E a lua mente o verde dos olhos
E os olhos gritam a luz da lua.

E a alvura vulga de tua pele
Se torna inefável ao som da lua.

E o verde esconde a cor dos olhor
Que é negra por herança humana.

E o rubor da face lânguida
Me declara a exaustão.

E a lua que perpassa a janela
Banha o ápice sinestésico.

Acabou.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Escárnio/ Escarro

O fétido asco,
Cospido como ele só,
Me agarra as entranhas
E como ele só,
Acidula tudo aquilo
Que outrora era paixão.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Discurso Póstumo

Minha vereda é, agora,
Os verdes campos, olorosos
Dissera basta ao tédio de mim possessor.
Que, ácido, me corroia as entranhas

M’embalo nesse manto negro,
Pra fugir daquela lucidez
Que me doía os olhos:
Furos nas retinas doridas

Paro de chorar, agora que cheguei
A(o) dor(me) dela, sou grato.
_Dei-te a mão, Dona da Foice.

E agora, me despeço, nada peço.
Agradeço-te, que amor(te) dei,
Em vão.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Apocalipse

E a frente de batalha inimiga
Prepara suas catapultas sentimentais
E lançam o asco ácido sobre os homens.

É, inda bem que nos avisaram
E a gente está preparado...

Não tá?

Desenomado

Já doei meu corpo
À tua alegria.
Já senti teu rosto;
Tua cara fria...


Mas nunca, na passagem
Desse tempo onde criei
Todo esse ódio negro
Nesse quase-verso-branco
Não achei pessoa alguma
Que curasse esse meu pranto.


Já cortei os pulsos
Com lâmina fria
Me acolheu convulso,
Me encheu de alegria.

Mas só quero que saiba
Que amanhã quand’eu partir
Te levo com meu pranto
Nesse quase-falso canto.

Já doei meu corpo
À tua alegria.
Já senti teu rosto
Tua cara fria...


E só quero que saiba
Que amanhã quand’eu partir
-Não há nada maior
De tudo que eu por ti senti.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mudo...

E a réplica anestesiada de tudo
Me toca face e corpo
E me faz estático porque me toca.

E permaneço quieto,
A olhar o fragmento de pó de estrela,
Quen insiste em brilhar,
Mesmo que já sem vontade.
Aproveito e faço igual.
Ainda mudo.

sábado, 31 de maio de 2008

Qu'é que a gente faz?

E agora, qu'é que a gente faz?
A gente espera?

Não, não dá mais pra esperar.
O nó da garganta já sufoca.
Já é nó em nó em nó em nós.
E aperta, e asfixia.
E prende a vida nos pulmões,
Nicotinados que só eles.

Se a gente esperar
O bicho come.

E se a gente correr
Acaba se perdendo lá na frente.

E então, qu'é que a gente faz?
A gente espera?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Metalinguagem #2 - O porquê das coisas

Escrevo.
Escrevo porque tenho lágrimas nos olhos.
Escrevo porque tenho que falar alguma coisa.
Escrevo porque o nó da garganta ainda está apertado e me sufoca.
Escrevo porque vejo cada lágrima virando uma letra,
E cada letra vira um som, e cada som vira uma lágrima.

Bem que se quiz

Às vezes eu queria ser só um pedaço de mim memso.
Às vezes eu queria ser só um monte a mais do sou mesmo.

Às vezes eu queria nem querer nada do que quero.
Às vezes queria querer muito mais do que quero.

Mas é o que diria Nhinhinha: "Deixa, deixa... Eu ainda vou pra lá."
Então que eu vá logo pra lá, apesar de nem querer saber onde é lá.
Apesar de nem querer de verdade ir pra lá. E isso dói.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Saudade...

E quando a gente fica com saudade da gente mesmo?
Que que a gente faz?

A gente sabe que essa saudade vai durar pra sempre.
A gente sabe que é o tipo de saudade que vem e fica.
A gente sabe disso porque a gente sabe que a parte da gente
Que a gente sente saudade
É a parte da gente que ficou no espelho da casa da gente.
E ficou por lá, e não volta mais.

A heroína decaída


E me tomo, de repente,
Por uma culpa estranha.
E sinto arrepios
Dos olhares a mim lançados.

E encontro a razão,
E vejo que o melhor, de fato,
É me esconder,
Então pego a seringa
E me escondo.
E me escondo nas minhas veias.
Cheias de pus.

Diálogo infantil: sobre a honestidade

- Outro dia minha mãe me falou que a gente tem que ser honesto, mas não entendi muito bem...
- Ah, honestidade é uma coisa fácil de entender.
-É?
-É.
-O que que é honestidade?
-Honestidade é quando a pessoa acha feio combinar qual número vai colocar no zero ou um, quando a gente não olha pra onde todo mundo tá indo no pique-esconde, é quando a gente devolve a borracha do colega sem levar pra casa. É quando a gente conta pra mãe que ficou de castigo na escola, e sabe que a mãe da gente é honesta também e não vai punir a gente.
-Então se eu te proteger, serei honesto com você???
-Não.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sabe quando?

Sabe quando a gente tem vontade de largar as coisas?
Sabe quando a gente tem vontade de entrar de férias, e ainda está no início do ano?
Sabe quando a gente queria que fosse tudo diferente?
Sabe quando a gente tá cheio de coisa na cabeça e não consegue explicar direito?

Pois é, isso é quando a gente precisa de férias...

Solimar e Marissol

Solimar gostava de futebol.
Marisol tinha cabelos cacheados.
Solimar gostava de bolo de chocolate.
Marisol estudava muito.
Solimar adorava quando era feriado.
Marisol se achava gorda ao olhar no espelho.

Solimar queria gostar de alguém.
Marisol queria ser advogada.
Solimar pensava que queria ter dois carros.
Marisol sempre achou que seria bom morar num sítio.
Solimar iria tentar vestibular até passar em medicina.
Marisol gostava muito de Chess-egg-bacon-burguer.

Eis Solimar e Marisol:
Dez anos de casados, três filhos,
Moram num apartamento bonito.
E são muito felizes,
Apesar de Marisol detestar
Quando Solimar sái de moto e não a leva pro trabalho.

Poesia

Ele pisou na linha preta do cadarço.
Ele tropeçou na pedra, e deixou virar poesia.
Ele só não viu o que aconteceu,
E se assustou quando já havia acontecido
E deixou virar poesia.

Ela mascou chiclete, fez bola
Mastigou a ponta do lápis, sentiu o amargor da tristeza
E deixou virar poesia.


E eu, vi aquilo tudo, tentei fazer alguma coisa.
Não pude.
Aí deixei virar poesia.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Diálogo infantil: sobre o amor


- Fala baixo! Ela não pode ouvir. A gente tá pegando a palavra dela e tá jogando aqui no texto.
- Ah, tá. Mas qual palavra que é?
-Amor.
-Hummm. Que que isso?
-Amor... é aquilo que a gente tem pelo pai da gente, que faz a gente não ter raiva depois de ter tomado tapa na bunda. Amor é quando a pessoa pede nosso biscoito e a gente nem fica com raiva de dividir, é quando a gente tem vontade de jogar video game o dia inteiro com a pessoa e deixar ela ganhar de você um monte de vez, só pra fingir de bobo quando ela rir da sua cara. Amor é quando a gente fica muito bravo quando outra pessoa fica rindo pra pessoa que você ama, meu pai me ensinou que o nome disso é ciúme.
-Ah, tá. Então eu amo meu cachorro.

Psicologia

Pó puro, poeira.
Pé , pata, pêlo.
Pacto, perto, pecado.
Pico, perene, planície.
Puta, puto, pai.
Pano, preto, pó.
Pé, perto, pai.
Pacto, perene, puta.
Pico, puto, poeira.
Pito, peco, pronto.

E se queda preso isso tudo...


Mas...

Ah, a dúvida.
Punhal que dilacera as tripas,
Abre o peito, corta o pescoço.
Mas deixa o coração quase intacto.
Só lhe ocorre, às vezes, uns cortes leves,
Pra poder sentir a dor da dúvida.

domingo, 25 de maio de 2008

O espelho


Quando eu era pequeno, ficava olhando pro espelho tentando adivinhar o que acontecia do outro lado. Às vezes ficava meio assim, ficava triste pelo menininho do outro lado, que tinha de me imitar em tudo. Às vezes achava que o menininho só me imitava por mera coincidência. Mas às vezes eu ficava triste de verdade por ter certeza que o menininho era eu, e eu era quem imitava o menininho. Aí, teve um dia que descobri que é só uma camada bem fina de prata, que reflete a gente. Acabou o sonho

Metalinguagem #1 - o início das coisas

E, de repente,
Sinto uma euforia estranha.
"Sou lido! Alguém me vê!"

Mas retomo a compostura.
Fico sério, apesar de rindo por dentro,
Me orgulho e vou escrever algo.
E me ponho a rir da minha metalinguagem.

sábado, 24 de maio de 2008

E Ela?

E Ela?
Por que me olha assim?
Porque me abraça e faz sentir tanto calor?

Por que sempre me anima?
Faz o mundo parar de girar,
E causa uma onda tão grande que afoga vulcão.

É menina, te busco água na peneira.

Te arranjo rosa espanhola.

Não te queda longe,
Qu'eu sinto tua falta.
Não te queda longe,
Senão o mundo anda.
E contigo, o mundo é melhor parado.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

I want

E me tomo, agora,
Por uma vontade súbita
De fumar um cigarro.

Tudo isso pra ter um quê de Blasé.

E me tomo, agora,
Por uma vontade súbita
De explodir-me em grito-devaneio,
E fragmentar-me todo como poeira saariana
E espalhar-me todo em toda a força bélica
Que contra o teto e tudo jogam, e tenho tido TOC's.

E me tomo, agora,
Por esta vontade súbita,
De não ter vontades mais,
Sanando dores, sarando horrores, secando amores.

Logo ele, que só era

Não, não é louco.
Só não lhe coube na alma
Toda a vida que na cabeça tinha.

Não se perdeu.
Só não quis achar o caminho
Que lhe disseram haver.

Só não quis que lhe olhassem
Com aqueles olhos de "eu nunca".

Só não quis que lhe fosse embora
Toda a razão que havia arranjado.

E, por isso, findou aquilo tudo
E de seu tudo, só se via agora os pés.

A Ela, que ainda ama

Acaba-te, pois em amor
Que é ele o único sempre a ti fiel.

Faz com que a ganância de felicidade
Seja maior que toda a força da vida sobre ti.

Olha cada vez ao espelho
E vê nova gente sair de dentro de ti.

E não te aflijas com essa coisa-bicho que te atormenta.
Verás ainda que é só mais um de teus amores,
Mas verás também que foi o primeiro
E não menos importante ou forte que qualquer outro vindouro.

E ama, pois é essa a intenção do amor:
Ser grande e pequeno,
Mostrar a ti que é, sim, bela a vida,
Mesmo que seja, às vezes, estranho pensar assim.

E acaba-te, pois, em amor
Que é ele o único sempre a ti fiel.
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*como prometido, depois de algumas lutas contra a natureza humana... feito!
(It's for you, Fran)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ao orgulhoso

Orgulha-te, pois
É de ti que muitas das vontades saíram.

"Quando crescer quero ser grande."
"Quando querer ser, muito grande, grande igual ele..."

E assim foi.
Não sou grande
Nem pequeno.

Mas desperto orgulho naquele que me criou.


Orgulha-te, pois.
Esse mérito
teu também é.
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*Para Theus(só clicar no título)

sábado, 17 de maio de 2008

Em nome do filho

Olhos fixos...
Batalha travada...
Espadas ao chão,
Cadeiras, Mesa, Vinho e Pão...

Quem é esse que luta com a pele?
Quem é esse que se usa de olhos para ferir?
Quem é esse que com palavra chama?

"Sim, fui eu...
Antes dos pregos e estacas e a cruz...
Seja feita a vossa vontade."

Revi

É, Sonhador...
Alguns sonhos de fato decaíram.
Mas outros tomam seu lugar.
Aspiram por Revoluções
Quase tão gloriosas
Quanto aquelas
Que outrora foram pensadas.

É, Sonhador...
Alguns sonhos se tornaram mais fortes.
Algumas metas mais alcançáveis.

Deixamos Narciso de lado...
Esfolamos a face de Dorian Gray.
Vênus de milo: Decaptada.

Então, Sonhador...
Dá-me a mão,
Que nos venham os vulcõs mais calmos,
E os vales mais turbulentos.
Que nos venha a imagem, a ação...

Que nos venham os versos,
Tais como são...
Em Carrara esculpidos...
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*é pra ti, Sonhador

segunda-feira, 12 de maio de 2008

The Who

Quem é ela?

Que me toca e arrepio?

Que me olha e sinto frio?

Que se faz assim, tão bela?

Por que assim? Tão, tudo?

Se me chegas perto, gaguejo.

Às suas costas solvejo

Qualquer música que relate esse meu mudo.

Não sei, se por tédio

Ou se sem motivo algum,

Recordo teu corpo nédio,

Deixo a água e boto Rum.

Canção de mim para ti

Vem,

Entra comigo na valsa,

Põe-se a rir, dessa troça,

Vem comigo, vem.


Vem,

Zomba comigo da gente,

Se finge de inocente,

E vem comigo, vem.


Ah,

Se você soubesse,

Só se você soubesse,

Tudo que eu quero dar.


Ah,

Só se você cantar,

Vou respirar mais ar,

Inda mais vou versalhar.


Ó, meu par,

Molda-te cubo em gelo,

Faz-te mais imperfeita,

Te tento copiar.


Mais acá,

Não se aprochegue não, viu?

É só aviso prévio, água azul anil,

Quando dá vontade de (a ti –te) cantar

domingo, 11 de maio de 2008

Valentine's day

- Acordastes cedo.

- É que vou-m’embora.

- Vais?

- Sim, vou.

- Porque vais?

- Não o quero mais.

- Por quê?

- Fado.

- Fado?

- É. Fado. Cansei-me de teu gosto, rosto e posto.

-Tudo bem. Abro-lhe a porta.

Ela se foi ao sol da manhã, caminhando em direção ao sol da cidade imensa. Ele voltou pra cama, olhou o teto, e ficou a divagar. Ela chegou em casa, bebeu conhaque se sentou à mesa e começou a escrever:

“Não me porto assim há tempo. Cansei-me de tentar ser. Não quero mais deixar-te a mim preso, certa de que mesmo que longe te faço influência. Chego ao ponto em que desligar-me de tudo é o mais sensato a fazer. Já não sinto mais o sal nas lágrimas dos olhos, e nem o açúcar do mel da flor roubada da casa da vizinha. Não me embriago e rio. Bebo e choro. E choro conhaque, puro. Me quedo longe do que seria o destino ideal, ou o início de um futuro brilhante. Noto que só há desgraça e aparência. Não me quero continuar aqui. Amo-te.”

Valentina. Nome que agora sopra o vento saído da boca da morte. É... Ela veio buscar Valentina. Se foi escutando “estátuas e cofres e paredes pintadas”, não pôde ouvir o final da música. Ela se jogou da janela do quinto andar.

Vinte e nove anos, vinte e nove amigos, vinte e nove reais na bolsa... Só isso. Não era necessário mais do que aquilo, não iria usar. Terminava o sonho de sua vida: a faculdade de medicina. Tentou muito. Conseguiu. Passou fome por dois anos na cidade maravilhosa, depois se arranjou, até comprou um Corcel 73. Não se contentava em ser só humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal. Tinha consciência de que devia estar contente por ter emprego e ser um dito cidadão respeitável. De repente, num baque, viu o lixo que tudo aquilo era...

Pela manhã, acordou com o sol na janela do seu quarto, tomou conhaque num dos cantos da cidade, saiu pra andar, tentar esfriar a cabeça, sentou à calçada da praça, desenhou toda a calçada, acaba o giz, terminou com tijolo da construção, rabiscava o sol que a chuva apagou. Era tão fácil voltar pra casa, o caminho era um só, mas preferiu andar mais.

Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida, ou fingir estar sempre bem, ver a leveza das coisas com humor. Via passar gente de cara feliz. Mas a alma estava podre, uma goiaba bichada, mas comiam o bicho, afinal, “bicho de goiaba é goiaba”. Só queria um abraço de um desconhecido, um oi ao menos, “mas não me diga isso, não me dê atenção, e obrigado por pensar em mim...”

Viu que sua presença nada era, não passava de pura ilusão egocentrista, pensou no que aconteceria se seus pés ficassem duros: Quem vai saber o que você sentiu? Quem vai saber o que você pensou? Quem vai dizer agora o que eu não fiz? Como explicar pra você o que eu quis?Era agora só um soldado pedindo esmola, não queria lutar.

Era tudo tão difícil, pensou em ir à casa da Noélia, não foi. Já sabia o que iria acontecer:

-“Quando tudo está perdido sempre existe um caminho, sempre existe uma luz...”

-“ Mas não me diga isso, hoje a tristeza não é passageira, hoje fiquei com febre a tarde inteira, e quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima.”

Era o que aconteceria.

Mas por acontecer, ela não sabia o que acontecia com ela mesma, Cadê o bronze no corpo, os olhos azuis? O seu corpo teinha marca de sangue e pus.

Decidida a findar aquilo, já que tudo dava errado, o que foi prometido niguém prometeu, se deu uma ordem: findar. Ordens são ordens.

Deixou umas frases, antes de ligar seu som, abrir sua janelae sentir o vento gélido no seu rosto: “Calei e escrevi isto em reverência pela coincidência: É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, por que se você parar prá pensar, na verdade não há.” De fato, não havia.

Ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

...

E agora?

Será mesmo o fim,

Serafim?

Querubim

Diz querer bem.


Mas não deu.

Deus-se a desgraça,

Mesmo que arcanjo o faça,

Ou refaça,

Te desfaça

Em faces.

E é fácil.

Duas faces, duas armas, dois punhais.

Chega

Chega de dois a dois.

Chega de par.

Chega de p’ra depois.

Chega de “vou me dar”.


Não me rimo mais a ti.

Peço, agora, licença poética

Para mandar-te ferrar,

Que se lance à desgraça eterna e sê maldita.


Meu decoro mantenho,

Não me uso de á educação,

E o asco que agora me amarga

È apenas puro reflexo

De tua consideração.

(Beijos)...

Kiss me

Beijo.

Beijo há no carinho.

Beijo há no ódio.


Há beijo entre Mim e tudo:

Entre Mim e a Barata,

Entre Mim e Kafka,

Entre Mim e Julieta,

Entre Mim e Abel,

Entre Mim e Caim,

Entre Mim e Judas,

Entre Mim e Monalisa,

Entre Mim e Vênus de Milo.


Mas o beijo que beijo mesmo

Não há.

Não há beijo de Mim para Mim,

De Mim para Ti.

De Mim para Abelardo.

De Mim Para Mim, Ti e Aberlardo

Há uma distância tão grande

Quanto um beijo.

Boa noite, Cinderela

Papel em branco,

Quartel e flanco,

Dama de branco

Sem seu tamanco:


Boa noite, Cinderela.


Posso ser franco,

Eu não me banco,

Sento-me ao banco

E dou-te um tranco:


Boa noite, Cinderela.


Defunto parco.

Já não me marco,

Apego-me ao arco

E a flecha é o marco:


Boa noite, Cinderela.


No meu anarco

Não me remarco

Só me esparco

E desapego-me do arco:


Boa noite, Cinderela.

É, José!

Leve oportunidade,

Breve obscuridade

É tal efemeridade.

Essa multiplicidade,

Dessa tal praticidade,

Cessa minha qualidade

Que é só puro pessimismo.

???

O cético,

O tácito,

O mórbido,

O déspota,

O emérito,

O ríspido,

O ápice,

O péssimo,

O áspero...


O réplico!